Talvez...
...sua resposta mais sincera seja: "Desculpe, mas eu não tenho nem tempo, nem energia para olhar para a cara dela."
Mas por mais que diga isso, você olha para essa mulher todos os dias. Você a vê sempre que olha no espelho.
Vê um rosto cansado, cercado por um turbilhão, sobrecarregado pelo peso da vida. Vê um rosto cujos olhos abertos procuram ver o mundo e ir ao encontro das pessoas — e ao mesmo tempo expressam claramente o quanto são janelas de uma alma cansada, e até começando a se sentir desesperançada.
A missão é muito dura e difícil. Sua atenção é constantemente disputada e sua energia nunca dá conta do recado. No fim, mesmo que as tarefas tenham sido desempenhadas, você sente que algo falta para que a vida pareça satisfatória. E sente que esse algo que falta é algo que falta dentro de você — mas não sabe seu nome nem onde procurar.
A menos que você prefira se conformar e aguentar o tranco até explodir, com certeza já se perguntou por onde começar a resolver isso.
A resposta é contraintuitiva: esse problema é o único que se resolve se você fizer ainda mais, e não menos, o que já está fazendo.
Quando é que a criança fica pronta?
Um macarrão instantâneo só precisa de três minutos e quase nenhuma atenção.
Já a
criança...
A criança jamais se cansa, e te cansa infinitamente. Ela tem aquilo que você chama de energia — e essa energia parece nunca acabar.
Energia é uma palavra insuficiente. Como sabemos, até a energia às vezes acaba.
Mas a criança é uma pessoa. E por isso ela é infinita: seu mundo interior é inesgotável, a densidade de seu ser é total.
É no encontro com essa infinitude chamada pessoa que nos esperam as maiores alegrias. E a maior de todas as alegrias é descobrir, no encontro com outra pessoa, que também somos uma pessoa: também há em mim algo que não se esgota e que parece — que é — capaz de tudo.
Mas se não estamos afinados com essa realidade, o infinito de outra pessoa nos esmaga. E a criança, por ser uma pessoa ainda em fase de formação, pode direcionar tudo que tem em si de uma forma que, para nós, que repousamos na ordem, terá o efeito de uma avalanche.
Uma pessoa (pequena, inconveniente, catarrenta e fofa) precisa encontrar uma pessoa (adulta, ordenada, digna e amorosa) para que ambas se desenvolvam no eixo mais importante da vida de todos nós.
Algumas palavras sobre mim
Em algumas crises vividas na vida adulta, sofri com a percepção de que, além da minha mulher, não tenho com quem contar.
Ao longo da vida adulta, percebemos — esse é nosso caso particular, mas não deixa de ilustrar uma tendência que ameaça ou afeta todas as famílias — que não temos ascendentes com quem contar. Não tenho tios, irmãos ou primos. Nossos amigos mais leais moram longe.
Nos piores momentos de nossa vida compartilhada, para mim e Anna Sara — minha mulher, mãe dos meus filhos — sermos os adultos responsáveis significou dar um jeito, sem ter a quem apelar e sem poder reclamar.
É daí que vem nossa autoridade. É daí que vem a nossa tarimba. A gente se vira. E por acaso, eu também penso, escrevo e edito livros. É dessa interseção que nasce esta obra.
Outras coisas que eu fiz na vida →
Promoção de lançamento
O livro completo em formato digital, pronto para ler em qualquer dispositivo.
O livro mais um caderno para anotar enquanto lê.
Leia acompanhado, com encontros quinzenais em vídeo para aprofundar cada capítulo.
O pacote completo, com acompanhamento individual para quem quer ir a fundo.